Merendinha do Arco

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Merendinha do Arco

Há lugares em Lisboa que parecem existir fora do tempo. A Merendinha do Arco é um desses. Quem passa pela porta pela primeira vez não sabe bem o que espera encontrar — e talvez seja esse o segredo. Entra-se com curiosidade e sai-se com a sensação de ter ficado a saber qualquer coisa que não está escrita em lado nenhum.

O restaurante foi registado em 1954 por dois galegos chamados Jesus e Sanchez, que chegaram a Lisboa com pouco mais do que as mãos e uma vontade enorme de trabalhar. A casa que escolheram tinha sido uma carroçaria — e isso ainda se sente. As portas são altas, desproporcionadas, como se o espaço guardasse memória de carros e cavalos que já lá não estão. No início, a entrada tinha portas de saloon, dessas de bar de cowboy de filme americano, que se abriam para os dois lados com um empurrão. O chão era de terra batida. Era outro mundo — e era exactamente por isso que toda a gente queria estar ali.

Hoje o espaço tem outros contornos, mas a alma manteve-se. As paredes da Merendinha respiram história acumulada em décadas: risos, discussões, reconciliações, casamentos celebrados entre copos levantados, amizades que começaram numa conversa ao balcão e duraram uma vida inteira. Até um fado nasceu aqui — composto entre mesas, como só acontece nos lugares onde as pessoas se sentem mesmo em casa. A luz dentro tem sempre qualquer coisa de acolhedor, quente, ligeiramente dourada, como a luz de uma tarde que não quer acabar. O cheiro é o de um restaurante que já cozinhou muito: azeite, especiarias, pão fresco, e qualquer coisa indefinível que só os lugares velhos têm.

Há um ritual que os mais antigos ainda conhecem: quando se pedia um copo ao balcão, o primeiro bocado do líquido era atirado ao chão. "É pro santo", diziam, com a naturalidade de quem cumpre uma promessa há muito assumida. Ninguém questionava. Era assim, e pronto. Esse tipo de gesto pequeno é o que separa um restaurante de um lugar com verdadeiro carácter.

Ao longo dos anos, por estas mesas passaram figuras de todo o tipo — desde nomes da política portuguesa até personagens da cidade que ninguém apresentaria em casa mas que toda a gente conhecia. A Merendinha do Arco nunca fez distinções. Recebeu a todos com a mesma sobriedade tranquila. O restaurante pertence também à rota associada a Fernando Pessoa nas suas famosas andanças pelas tascas de Lisboa — embora o poeta tivesse morrido em 1935, quase duas décadas antes de a casa abrir as portas, o edifício e a rua já faziam parte do mapa afectivo da cidade que ele tanto amava.

O pai, dono da casa, entrou em 2002; Filipe Castro, filho de David Castro, juntou-se à equipa em 2006; e o filho chegou em 2020 como gerente, numa continuidade que nunca foi planeada mas que faz todo o sentido. Gerir a Merendinha do Arco não é só gerir um restaurante — é ser o guardião de um lugar onde Lisboa se sentou à mesa e contou histórias.